Tenda Paulo Freire – FREPOP 2013

Tenda Paulo Freire de Educação Popular- Frepop- 2013

TEMA EIXO

DIREITOS HUMANOS E A EDUCAÇÃO POPULAR:

Memória e resistência das lutas dos povos pela garantia efetiva e ampliação de direitos.

– UM OUTRO MUNDO É POSSÍVEL!-

Unilins- Lins/São Paulo

 

FIOS METODOLÓGICOS

Tecendo a Manhã

 João Cabral de Melo Neto

“Um galo sozinho não tece a manhã: ele precisará sempre de outros galos”. De um que            apanhe esse grito que ele e o lance a outro: de um outro

galo que apanhe o grito que um galo antes e o lance a outro;

e de outros galos que com muitos outros galos se cruzam os

fios  de  sol  de  seus  gritos  de  galo para que a manhã, desde

uma  tela  tênue,  se  vá  tecendo,  entre  todos  os  galos.  E se

encorpando  em  tela,  entre  todos, se erguendo tenda, onde

entrem todos, no toldo (a manhã) que plana livre de armação.

A manhã toldo de um tecido tão aéreo que, tecido, se eleva por si: luz balão”

Primeiros fios, PANOS, linhas e FITAS para tecer o Encontro…

              Os Movimentos de Educação Popular em Saúde (EPS) desde 2003 vem discutindo estratégias de fortalecimento da EPS conjuntamente e tem encontrado na institucionalizada do Sistema Único de Saúde – SUS um espaço potencial. A REDEPOP (Rede de Educação Popular em Saúde), ANEPS (Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular em Saúde), GT de Educação Popular em Saúde da ABRASCO e a ANEPOP (Articulação Nacional de Extensão Popular) refletiram sobre a urgência e importância de construção de uma Política Nacional de Educação Popular em saúde, apontando caminhos mais identificados com o campo popular na construção de uma sociedade mais saudável e de um sistema de saúde mais democrático, com efetiva participação popular, tendo a construção compartilhada de saberes, soluções criativas e mobilizadoras na saúde. Como estratégia para atingir os objetivos, a ideia é valorizar as práticas locais dos mais diversos grupos, movimentos, profissionais e instituições que considerassem e respeitassem a diversidade de saberes e culturas, presentes nas práticas de Educação Popular em Saúde.

As reuniões, fóruns, encontros, rodas de conversa e oficinas têm sido práticas constantes dos movimentos de EPS, em um processo que tem possibilitado a construção de atividades a nível nacional, resgatando e refletindo o jeito dos trabalhadores e populares de fazer saúde para, em um movimento ascendente, apontar elementos que contribuam com a construção da Política Nacional de Educação em Saúde.

Neste caminho construímos como inédito viável junto a Ministério da Saúde a instituição de um Comitê Nacional de Educação Popular em Saúde (CNEPS) com a presença de representantes do governo e majoritariamente dos movimentos e coletivos. Fruto das propostas formuladas neste novo espaço foi realizado, em parceria com a Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa, coordenadora do CNEPS, uma série de encontros em todo o país configurados como espaços de formulação da PNEPS e objetivando mobilizar e formar grupos sociais incentivando a participação popular para o efetivo exercício do controle social; valorizar e divulgar as práticas populares de cuidado em saúde, resgatando a história e estimulando a linguagem popular na saúde, tendo o teatro, o cordel, a dança de roda, a música e as poesias como referencias.

Hoje estamos organizando nossa Tenda no XI FREPOP – VII INTERNACIONAL que se torna um eixo fundamental na produção de sentidos e subjetividades que esperamos que se traduza na orientação das atividades a serem desenvolvidas nos próximos anos, sobretudo se vislumbrada na perspectiva de delinearmos estratégias na formação de atores sociais (profissionais, mulheres, educadores, jovens, estudantes, professores, parteiras, rezadeiras, benzedeiros, raizeiros e agentes comunitários de saúde).

Os temas, diálogos e práticas propostos nesta Tenda foram cuidadosamente pensados, acreditando que se cada ator se somar a esta roda e comprometer-se na conquista das questões refletidas a partir destes podermos ampliar e promover uma maior participação dos movimentos de Educação Popular em Saúde, seus diversos atores no contexto de discussão e implementação da Política Nacional de Educação Popular em Saúde.

O FREPOP pretende reunir participantes do país e convidados de fora em quatro dias onde teremos a possibilidade de discutir a pactuação de uma agenda de atividades para os próximos anos, no resgate da cultura popular, a valorização das práticas populares de saúde, e os demais jeitos de fazer da EPS.

O momento que estamos vivendo demanda uma discussão sobre a importância da participação popular e sobre o SUS que desejamos, principalmente, após a I4ª Conferência Nacional de Saúde de 2011 e a aprovação da Política Nacional de Educação Popular em Saúde.

Por que construirmos a Tenda:

O histórico das tendas nos mostra que elas têm sido importantes no sentido de fortalecer nos espaços de construção do saber e mobilização social, o jeito popular de levar a vida, de construir processos pedagógicos, de sentir e pensar a saúde. Contribuindo assim, para o pensamento e construção de estratégias para um projeto popular de sociedade.

A construção histórica das políticas públicas no Brasil, que são ou deveriam ser as garantidoras dos direitos da cidadania, nos mostra que nem sempre estas são guiadas pelo interesse popular, pelas demandas daqueles mais desfavorecidos, neste contexto a EPS se apresenta como defensora da s classes populares, dando visibilidade aos problemas e dificuldades enfrentados no cotidiano de nossas comunidades populares.

A mobilização da sociedade, especialmente dos diversos educadores dos movimentos sociais, representa importante conquista histórica na construção cotidiana do SUS, tanto para garantir os princípios desse sistema e reorientá-lo, seja no campo do cuidado, das práticas, no campo da gestão.

Desta forma a realização da Tenda torna-se um eixo fundamental na produção de sentidos e subjetividades que se traduzam na reorientação das ações a serem desenvolvidas nos próximos anos, sobretudo na perspectiva de delinearmos estratégias na formação de atores sociais (gestores, trabalhadores, conselheiros de saúde, usuários entre outros).

Ainda, em decorrência das ações propostas do Comitê Nacional de Educação popular em Saúde, que desde 2009, empenhado na formulação da Política Nacional de Educação Popular em Saúde, nos é necessária avaliar as propostas encaminhadas e discutir novas ações para o fortalecimento do processo de mobilização da sociedade para o fortalecimento da participação popular referenciada na Educação Popular em Saúde. Este projeto constitui parte importante das ações propostas e se reveste pelo caráter integrador e multiplicador dos eventos a serem realizados. O FREPOP contribui com as transformações que precisamos para fortalecer a participação popular e o SUS.

Neste fórum, que irão participar pessoas que estão em contato freqüente com a população principalmente carente, contribuirá muito com o trabalho de conscientização e esclarecimento do público que diariamente essas pessoas têm contato e contribuirá com a participação popular, nas práticas populares e integrativas de saúde e outras atividades desenvolvidas pela rede de saúde com a comunidade nas diversas áreas onde o trabalho é desenvolvido. E no final do fórum teremos uma agenda de ações que serão desenvolvidas de forma permanente e integradas com o SUS.

Dentre os participantes teremos educadores populares, que atuam nos movimentos sociais e populares, diretamente ou em atividades de assessoria e formação (organizações não governamentais, grupos e instituições civis, religiosas ou não); profissionais, técnicos, pesquisadores, estudantes, lideranças; gestores da saúde dos níveis municipal, estadual e federal; grupos, agentes e sujeitos culturais e artísticos de diferentes regiões do país, comprometidos com a perspectiva da Educação Popular e da participação popular no fortalecimento do SUS, na perspectiva de construção de um Projeto Político e Social no Brasil e na América Latina. Pois – Um Outro Mundo é Possível!

Onde queremos chegar:

l  Articular sujeitos envolvidos com movimentos e práticas de Educação Popular em Saúde para contribuir com a construção do Projeto Popular para o BRASIL, frente aos desafios de efetivar a Saúde enquanto Direito;

l  Avaliar atividades desenvolvidas nos últimos anos e discutir estratégias de fortalecimento do controle social e da Educação popular buscando saídas para o fortalecimento do SUS e do movimento popular;

l  Propiciar o resgate da cultura popular e da troca de experiências e conhecimentos como forma de ampliar a quantidade de multiplicadores e militantes, articulando os educadores populares em processo de reflexão sobre a amplitude e lugar social dos sujeitos que promovem a saúde, buscando compreender sua intervenção;

l  Promover processos potencializadores para desenvolvimento de uma compreensão mais ampla sobre saúde, de forma a modificar a promoção da saúde, a ressignificação das necessidades e as propostas de intervenção terapêuticas nos vários espaços sociais;

l  Despertar nas parteiras, rezadeiras, benzedeiros (as), raizeiros e agentes de saúde o interesse em fazer um trabalho continuado de prevenção e promoção da saúde no Estado, com a finalidade de reduzir a incidência das doenças e integrar as atividades desenvolvidas pelo SUS;

l  Refletir sobre as questões da Saúde, na perspectiva das Práticas e Experiências Populares em Saúde;

l  Fortalecer a luta pela saúde como direito dos povos;

l  Formular estratégias de ampliação das práticas educativas que considerem as práticas populares de cuidados na produção da saúde no SUS;

l  Gerar um processo de diálogo com os sujeitos e movimentos vinculados a Educação Popular e as instituições públicas sobre o processo histórico e cultura dos movimentos sociais e populares que fomentaram a Educação popular em Saúde;

l  Fortalecer o processo de articulação e pactuação dos Movimentos de EPS para a formulação de propostas e atividades para os próximos anos, na perspectiva da efetivação e fortalecimento do Comitê Nacional de Educação Popular em Saúde, ampliando o espaço de debate a nível nacional e debater a implantação da Política Nacional de Educação Popular em Saúde;

l  Construir espaços de articulação e intercâmbio de experiências na área de formação em saúde dos trabalhadores e trabalhadoras, para o fortalecimento das lutas pelo direito á saúde e por condições dignas de trabalho e reprodução social;

l  Continuar debatendo a Educação Popular em Saúde no contexto do FREPOP;

l  Construir um espaço de expressão, articulação e diálogo entre os saberes popular e cientifico;

l  Discutir Importância da criação da frente parlamentar em defesa da Educação Popular em saúde.

l  Estabelecer estratégias de comunicação para o fortalecimento do diálogo entre os movimentos populares e dentre estes e os gestores do SUS no país;

l   Acolher as experiências de exercício do controle público e gestão participativa, em parceria com os movimentos sociais;

l  Desencadear, no país, processos formativos em Educação Popular em saúde, articulando movimentos e práticas populares, serviços e gestão do SUS e instituições acadêmicas;

l  Identificar e evidenciar as experiências de Educação Popular em saúde desenvolvidas no País enfatizando as práticas populares de cuidado e suas contribuições para a implementação dos princípios do SUS, o protagonismo dos movimentos populares na conquista do direito à saúde, bem como, no fortalecimento da gestão participativa do SUS;

O ponto a ponto do bordado

1 – Começando a tecer em rede

  • O bordado em rede – Começa quando juntamos os recursos e as forças para começarmos a tecer. O que nos anima a começar é a vontade de caminhar de braços dados, todos os participantes, sejam estes da academia, dos movimentos, das práticas ou dos serviços e instituições de saúde;
  • No bordado em rede – Se faz presente a mística, as cirandas e as danças, a arte-cultura com suas poesias, cordéis, teatro popular, vídeos, desenhos, blogs populares, a animação e a criatividade como diferenciais do fazer da Educação Popular em saúde;
  • Místicas de Mobilização – Atividades que objetivem mobilizar os participantes do evento para as atividades do dia. As místicas de mobilização ocorrerão inicio das atividades e após o Almoço.
  • Dinâmicas – Têm diversos objetivos: integração, apresentação, recreação e animação. Elas irão permear naturalmente por todo o encontro.

 

Culturais (Grupos Culturais e Teatro) – Ocorrerá durante todo o evento apresentações cultural de grupos locais que retratem a cultura brasileira.

Atividades Corporais – Atividades matutinas que objetivam acordar o corpo e a mente de forma saudável, para tanto será desenvolvida atividades com a ioga, o Tai Chin Chuan, massagem, meditação, Reiki, Acupuntura auricular, Rezas, entre outros;

  • As Rodas – os espaços são organizados buscando a visibilidade a cada um, seu conhecimento e sua prática. Em roda, estamos lado a lado, e ninguém está à frente ou atrás de ninguém; chamemos todos para a roda, que ninguém fique fora dela, fazendo isso com leveza sem gerar obrigações ou pressões. Serão espaços de exposição de pontos de vista, experiências e práticas que visam aprofundar a temática do encontro, fomentando a discussão e fundamentando a elaboração de questões e propostas. A metodologia utilizada nesse espaço será a seguinte:

Composta também por convidados que tenham experiência sobre o tema que contribuirá com a discussão.  Em cada roda estará presente um facilitador, um animador, um sistematizador que será responsável por providenciar materiais e estrutura para funcionamento das atividades.

  • Os fios que se conhecem, reconhecem e se cruzam – Começamos dizendo quem é e onde estamos nos reconhecendo como um coletivo momentâneo, que dura o tempo que teremos juntos, para debater e construir idéias, como se fossemos cada fio dessa costura, todos importantes e necessários; a palavra circula, e não se prende em ninguém; ninguém é dono do saber, nem da palavra, o dialogo é circular;
  • E o que é Educação Popular em saúde… Nestes encontros vamos também dizer que pensamos que é a Educação Popular em Saúde, como esta se expressa, quais os problemas que enfrentamos para que as práticas educativas sejam de fato participativas vivas e não uma transmissão de “quem sabe para quem não sabe”;
  • O debate é a chance de conhecermos experiências e desconstruirmos interpretações ou conceitos que estão muitas vezes desgastados, onde podemos articular nossos saberes e construímos algo novo. É um jeito de tornar a palavra viva e colada à vida.
  • Os novelos e os nós que trazemos – Certamente haverá um tema norteador para o debate, mas o importante é cada pessoa presente poder trazer sua experiência a respeito das questões que não têm resposta, e das situações-limite, nossas formas de negação e superação da realidade dada;

2 – Desatando os nós

  •  Capilaridades, Situações-limite partem do cotidiano, e expressam as contradições e lutas que os grupos populares vêm historicamente enfrentando para a conquista de uma ordem social justa, igualitária entre homens e mulheres; não diz respeito apenas a problemas pessoais, geralmente se referem a processos ocultos, coisificados; a realidade das questões de saúde é sempre complexa, por isso temos de ir discutindo e nos perguntando: “O que é que está na raiz ou por detrás desta situação?” “Como podemos, coletivamente, explicá-la?
  • Este processo de explicação coletiva já vai construindo um conhecimento compartilhado, na medida em que cada um, participando vai também mudando e aprofundando sua forma de ver a questão em debate; é importante registrarmos a essência das falas, de modo a ter uma síntese deste pensar coletivo;
  • As pequenas rodas e oficinas – os trabalhos em grupos menores têm um objetivo, que é o de facilitar a palavra para todos; numa grande roda, muitos se sentem com dificuldade para falar, ou pensam que poderão atrasar os trabalhos – já numa roda menor, conseguimos fazer a escuta atenta de cada participante;

As rodas de conversas são espaços de discussões focalizados em temas variados, que convergem com o tema central do evento. Durante o evento ocorrerão rodas de conversas e oficinas (que geralmente sai um produto) e nela buscaremos possíveis resoluções de problemas que envolvem a temática central. As rodas de conversas serão de livre escolha dos participantes. Cada roda de conversa contará com facilitadores (as) e relator (a). A forma de apresentação o grupo decide, pode ser de forma lúdica, escrita, oral, ou outra forma.

  • Temas ou questões polêmicas precisam ser repensados no grupo – se são temas importantes para o debate coletivo vão dedicar atenção a eles; mas se são temáticas importantes, mas paralelas, e que pedem um momento posterior, cada um de nós deve repensar. E vamos lembrar que muitas vezes o debate não vai adiante quando a polêmica se instala, mas que mais à frente conseguimos desatar coletivamente aquele nó para avançar;

3 – Bordando propostas

  • Perguntas já apontam para o inédito-viável – Algumas perguntas são desencadeadas de respostas e mais perguntas, assim quando nos desafiamos a respondê-las em coletivo vamos gerando novas respostas ou outras perguntas, muitas vezes ao mesmo tempo; uma resposta trazida por um companheiro ou companheira vai se juntando a outras, e todas vão se modificando; por isso, aquela ideia inicial que cada um tinha geralmente se modificada pelo coletivo depois de um tempo de debate;
  • Diversidades de Idéias – Se há idéias em disputa, estas precisam estar claramente formuladas, principalmente para identificarmos qual é o foco da disputa. Idéia em disputa é diferente de pessoas em disputa – podemos e devemos debater idéias de forma respeitosa, solidária, com escuta atenta e sem tomar conta da palavra ou as personalizar;
  • As questões e o coletivo – o coletivo dos fios é que faz o tecido: Assim como as grandes questões que precisam ser enfrentadas não são individuais, as respostas a elas também não são individuais; não existe uma pessoa capaz de dar estas respostas – apenas coletivamente se pode construir o jeito de avançar juntos, identificando as forças que já existem, desenhando o bordado novo, a situação nova, passo a passo, que queremos conquistar; por isso, ninguém tem razão sozinho, mas ao mesmo tempo, todo mundo tem razão!
  • Sistematizar – o registro das propostas também não pode ser esquecido – confiar apenas na memória é um risco, assim temos de buscar anotar e ainda valorizar os registros feitos por todos os participantes, registrar as avaliações do processo para que o caminho possa ainda ser trilhado muitas vezes;
  • O registro pode ser através de diferentes linguagens e formas de expressão – é o exercício da arte e criatividade, da memória e sistematização expressas nas poesias, cordéis, músicas, blogs, performances, murais, fotografias, vídeos etc…
  • E esta conversa é como um pano bordado – tem uma hora que acaba, mas não acaba. Porque o caminho na direção de uma sociedade onde a saúde seja de todos é longo, e apenas começa; e cada ponto bordado que deixamos, vai ajudar a construir este belo bordado que sonhamos!

Assim, ao tecer a rede, é indispensável:

– Ouvir e falar cuidadosamente, para que todos entendam;

– Promover a discussão efetiva dos pontos;

– Articular e envolver todos no tecer;

– Facilitar a sistematização;

– Tornar a discussão propositiva e com encaminhamentos.