CURTA SUS : Cinema e educação popular em saúde no SUS Aracaju

Chenya Valença Coutinho – Bacharelanda em Enfermagem (UFS)[1]*

Gustavo Ávila Dias – Mestre em Antropologia (UFS)

Aline de Oliveira Ribeiro – Mestranda em Enfermagem (UFS)

Rosiane Dantas Pacheco – Mestre em Saúde Coletiva (UNESP)

 

RESUMO

Resultado de um estudo observacional, retrospectivo, descritivo com interpelação quali-quantitativa, que aborda a Educação Popular em Saúde baseada em uma perspectiva dialógica de comunicação em saúde eficaz. Pretende-se verificar os resultados do projeto Curta SUS e possibilidades de uso da Educação Popular e do cinema como estratégias para ações de educação em saúde. Realizou-se a pesquisa com 33 profissionais que atuam nos dispositivos do SUS/Aracaju, e demais redes articuladas. Assim, conclui-se que o diferencial do projeto é servir de ferramenta aos trabalhadores de saúde ao utilizar tecnologia e arte integrados às rodas de conversa fomentando o diálogo e troca de saberes e potencializando todo processo educativo.

DESCRITORES: Educação em Saúde, Promoção da Saúde, Arte, Comunicação.

INTRODUÇÃO

O presente estudo aborda a Educação Popular em Saúde por meio de uma perspectiva dialógica, construtiva de cidadãos partícipes e autônomos, capaz de promover de forma eficaz a comunicação entre sujeitos. Além disso, por meio do projeto Curta SUS, pretende-se avaliar o uso da arte e da metodologia proposta pela educação em saúde como elementos potencialmente disparadores de problematizações e reflexões no âmbito da saúde coletiva – a qual, possivelmente, instigaria os sujeitos a deixarem a posição de meros espectadores para conquistarem uma atitude de atores sociais conscientes de seus direitos e corresponsáveis por sua saúde.

O Projeto Curta SUS surgiu no âmbito da secretaria Municipal de Saúde do município de Aracaju (SMS) com o objetivo de estreitar a articulação entre as ações de promoção e prevenção à saúde. A proposta apresenta como ferramenta propulsora dessas ações a utilização da linguagem cinematográfica para fomentar rodas de conversa e reflexões acerca da produção de saúde, bem como o empoderamento dos indivíduos dentro dos dispositivos de saúde do território. O projeto destaca-se, dentre outros aspectos, pelo seu caráter inovador e singular, notabilizado por utilizar tecnologia leve com baixo investimento para implementação, como também por seu alicerce nos princípios da Educação Popular idealizada por Paulo Freire e na Política Nacional de Humanização (PNH).

No decorrer da análise, observou-se a carência de estudos e relatos de experiências similares ao Projeto Curta SUS nos âmbitos regionais e locais, fato que motivou a realização deste trabalho. Assim, acredita-se que os resultados obtidos poderão subsidiar novas pesquisas, além de contribuir com a sensibilização dos profissionais da saúde em relação a importância da ampliação da promoção e prevenção à saúde por meio de ações de caráter educativo de forma integral e humanizada. Também, proporcionar debates acerca da utilização da Educação Popular e do cinema nas ações de educação em saúde.

SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE (SUS)

A criação do SUS, há cerca de 20 anos, foi resultado de um processo que amadureceu ao longo das resistências e lutas dos movimentos sociais, tal sistema mantêm-se em reformulação e renovação continua.1 Portanto, faz-se necessária uma revisão crítica dos modelos e ações implantadas no SUS.

A Política Nacional de Humanização formulada e lançada em 2003 pelo Ministério da Saúde (MS),2 é um exemplo de proposta de renovação dos modelos de gestão e atenção no cotidiano dos serviços de saúde. Essa política reafirma os princípios da universalidade, equidade e integralidade do SUS, além de propor a transversalidade, a não dissociação entre atenção, gestão e protagonismo, corresponsabilidade e autonomia dos sujeitos e coletivos.3 A PNH sugere, ainda, a mudança dos modelos de atenção e gestão fundados na racionalidade biomédica por meio de práticas como: a clínica ampliada, a cogestão dos serviços, a valorização do trabalho, o acolhimento, a ambiência, a defesa dos direitos dos usuários, dentre outras.3 Enquanto objetiva o fortalecimento e a efetivação do SUS, compromete-se com a qualificação do mesmo por meio da mobilização dos sujeitos e determina o papel do apoio institucional, que visa a construção de outro formato do trabalho.2

Outra proposta de readequação dos modelos de saúde que ganha destaque nas últimas décadas é a Educação Popular em Saúde, orientada pelas ideias de Educação Popular propostas por Paulo Freire. Assim, por meio de uma aproximação e integração do saber científico ao saber popular, busca-se uma metodologia mais humanizada nas práticas em saúde.

 

EDUCAÇÃO EM SAÚDE E EDUCAÇÃO POPULAR EM SAÚDE NO SUS

A educação em saúde, no Brasil, teve início nas primeiras décadas do século XX com as campanhas sanitárias e a expansão da medicina preventiva para diversas regiões do país.4 Nessa época, tais ações não eram vistas como prioritárias e nas poucas vezes que ocorriam visavam domesticar as pessoas para obedecerem às normas de conduta.5

Segundo Carvalho (2004), as ações de educação que têm como objetivo a promoção de saúde envolvem escolhas, dessa forma, não devem se situar apenas no nível do conhecimento científico, mas sim nos valores e representações subjetivas dadas ao processo de educação e empoderamento dos sujeitos. Dessa maneira, ao invés de conceber as ações educativas, em saúde ou outra área do saber, como mera transmissão de informações, deve-se compreendê-las como processos de construção real de conhecimento, fundamentado em práticas do cotidiano carregadas pela subjetivação de cada indivíduo. Onde o cotidiano é compreendido como fonte inexaurível de situações que podem se tornar disparadores de reflexão.6

Essa perspectiva, portanto, é ponto no qual há o entrecruzamento das ações de educação em saúde e a Educação Popular. Idealizada por Paulo Freire, na década de 60, apresenta como cerne do processo pedagógico o saber popular dos sujeitos. Considera-se, desse modo, que em suas dimensões familiares, sociais, econômicas as pessoas adquirem entendimento sobre sua relação com a sociedade e o meio ambiente. É por meio dessa gama de saberes fragmentados que a educação popular tece novos saberes.

No âmbito da saúde a Educação Popular permite criar uma integração dos saberes entre o conhecimento da população e o conhecimento científico dos profissionais, na qual ambas as partes aprendem concomitantemente.7 Dessa forma, contribui para despertar o sentimento de cidadania da comunidade, promover a compreensão e o acesso ao direito à saúde dos sujeitos, conforme assegurado na Constituição Federal de 1988.8 E possibilita ainda a ampliação dos olhares dos profissionais de saúde por meio do respeito, do diálogo e da valorização dos saberes populares que atravessam gerações.

Durante os movimentos de reforma sanitária a Educação Popular passou a ser utilizada como instrumento para construção e ampliação da participação popular no gerenciamento e reorientação das políticas públicas. E no cenário contemporâneo, destaca-se meios de enfrentamento da lógica hegemônica dos serviços de saúde (VASCONCELOS, 2004).

Em 2009, o Governo Federal por meio do MS instituiu-se o Comitê Nacional de Educação Popular em Saúde, com base na relevância dos princípios éticos e metodológicos da Educação Popular em Saúde no fortalecimento da integralidade e da humanização das ações e serviços na área.9 Mais recentemente, em 2013, o Ministério da Saúde instaurou a Política Nacional de Educação Popular em Saúde (PNEPs) no âmbito do SUS. Tal medida é orientada pelos princípios do diálogo, da amorosidade, da problematização, da construção compartilhada do conhecimento, da emancipação e do compromisso com a construção do projeto democrático e popular. Também, apresenta como eixos estratégicos: a participação, controle social, gestão participativa; a formação, comunicação, produção de conhecimento; o cuidado em saúde; a intersetorialidade e diálogos multiculturais.10

 

PROJETO CURTA SUS

O Projeto Curta SUS foi idealizado e é executado pelo Núcleo de Projetos Inovadores (NUPRIN) da Secretaria Municipal de Saúde de Aracaju. Segundo Murilo de Brito Andrade,[2]** coordenador do núcleo, a iniciativa existe há aproximadamente quatro anos. Surgiu com o objetivo de estreitar a articulação entre as ações de promoção e prevenção/cura e reabilitação.

Nesse contexto, o projeto emerge como reforço para desenvolvimento de uma política de saúde que esteja pautada na promoção, prevenção e atenção à saúde, na qual a concepção de saúde como ausência de doença é ampliada para uma produção social, subjetiva, econômica e cultural. A iniciativa – alicerçada na PNH, a PNEPS e a Política Nacional de Promoção à Saúde – traz como cerne a utilização da linguagem cinematográfica para disparar reflexões e debates dentro das USF’s e das escolas no que diz respeito a produção de sujeitos e de saúde. Dessa forma, o Curta SUS aposta no potencial subjetivo da arte e na popularidade alcançada pelo cinema, que pode ser considerado ainda como um modo de reflexão sobre o real, quando leva o sujeito-espectador a exprimir problemas histórico-sociais antes apenas vivenciados, conferindo ao artista a função de porta-voz da sua coletividade.11

Em relação aos recursos, dinâmica e logística das exibições, as intervenções do Projeto Curta SUS são sempre solicitadas por profissionais que atuam no SUS Aracaju ou nas redes auxiliares e atendidas conforme disponibilidade de agenda do NUPRIN. A estrutura mínima necessária para as exibições são duas caixas de som, um datashow e um profissional que atua como referência técnica. As mostras ocorrem de forma itinerante, com exibição de filmes curta-metragem em quaisquer espaços propícios a projeção de imagens, tais como salas de espera das USF, salas de reunião, salas de aula, praças, dentre outros. Atualmente conta com acervo de vinte filmes (com duração entre cinco a trinta minutos), todos devidamente autorizados para exibição. Após cada mostra é iniciada uma roda de conversa a partir das percepções e demandas dos espectadores.

Sob a ótica da concepção de sujeitos sócio-histórico para a Educação Popular, uma mesma película oferece uma ampla gama de possibilidades temáticas para discussão dentro de um mesmo grupo. Na perspectiva da comunicação e educação em saúde a dinâmica da exibição contribui para que cada espectador, seja trabalhador ou usuário, traga suas impressões, bem como as correlações imediatas que conseguem fazer com eles próprios e/ou com a comunidade a qual pertencem. Nesse contexto, e com sutileza, o facilitador do dia insere no diálogo as informações em saúde, de maneira que complementem, ratifiquem ou retifiquem as ideias que circularam na roda.12

 

OBJETIVOS

O presente artigo tem como objetivo geral verificar os resultados do referido projeto diante das possibilidades de uso da Educação Popular e do cinema como estratégias para ações de educação em saúde. Assim exposto, os objetivos específicos são: a) Conhecer os objetivos do projeto Curta SUS; b) Identificar o perfil dos profissionais solicitantes desse projeto; c) Conhecer os grupos-alvo participantes desse projeto; d) Verificar se os objetivos propostos pelos solicitantes foram alcançados; e) Identificar o papel da Educação Popular em Saúde na comunicação em saúde e nas atividades das equipes da estratégia saúde da família.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

A pesquisa foi realizada nos dispositivos do SUS de Aracaju e demais redes articuladas do município. Aracaju possui aproximadamente 571.000 habitantes13 e apresenta quarenta e quatro Unidades de Saúde da Família (USF) distribuídas em quatro polos para atender à população.

O projeto foi encaminhado ao Centro de Educação Permanente em Saúde (CEPS) da Secretaria Municipal de Saúde de Aracaju e submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) do Hospital Universitário da Universidade Federal de Sergipe (HU/UFS), e embora a pesquisa envolva seres humanos foi evidenciado risco mínimo devido caráter observacional. Convém destacar que a coleta de dados teve início somente após aprovação do CEPS e do CEP do HU/UFS, conforme parecer número 977.136, regulamentado pela Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde (CNS).

O grupo pesquisado foi composto por profissionais (solicitantes da intervenção do Projeto Curta SUS) vinculados à USF, programas de saúde da Secretária Municipal de Saúde de Aracaju, Centro de Atenção Psicossocial (CAPs), Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), Secretaria Municipal de Educação de Aracaju, também escolas municipais e estaduais.

A amostra escolhida foi do tipo não-probabilística e de conveniência. Os critérios de inclusão foram: ser o profissional solicitante da intervenção, ter participado da roda de conversa e aceitar participar da pesquisa. Destaca-se que foram excluídos os solicitantes que não participaram das rodas de conversa. Assim, a amostragem contou com trinta e três profissionais que atenderam aos critérios de inclusão e aceitaram.

A análise dos dados foi feita por meio de elaboração de planilhas e tabulação dos resultados, a fim de elaboração do banco de dados quantitativos, como também para análise descritiva e inferencial dos mesmos. Realizou-se, também, análise dinâmica das narrativas com posterior categorização sistemática e quantitativa das mesmas. Tais observações foram feitas em conjunto com o método das palavras geradoras propostas por Paulo Freire. Nesse processo, tabulou-se o quantitativo de vezes que determinada palavra ou expressão apareceu na narrativa dos entrevistados, considerando apenas uma vez para cada participante.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Em relação ao perfil dos profissionais solicitantes que atenderam aos critérios de inclusão e aceitaram participar da pesquisa, 84,9% eram do sexo feminino e 15,1% do sexo masculino – a maioria (63,6%) possui idade entre 30 e 50 anos. Concernente à formação acadêmica a maior parte (57,6%) possui formação no campo da saúde: 27,3% dos entrevistados são formados em Serviço Social; 15,2% em Psicologia; 12,1% em Enfermagem; e 3,0% em Odontologia. Os demais possuem formação nas áreas da licenciatura e cursos técnicos. Acerca do tempo de vínculo na instituição de trabalho, a média é de 9,5 anos: 69,1% vinculados à Secretaria Municipal de Saúde de Aracaju; 21,2% à Secretaria Municipal de Educação de Aracaju; 6,7% à Secretaria de Saúde do Estado de Sergipe; e 3,0% à Secretaria Municipal de Assistência Social de Aracaju. Assim exposto, evidencia-se que as atividades educativas e ações de promoção e prevenção à saúde dentro da Estratégia de Saúde da Família são realizadas prioritariamente por assistentes sociais e enfermeiros.

Um ponto de partida para discussões diz respeito às ações de promoção de saúde, que muitas vezes estão em segundo plano nas atividades profissionais e por vezes suprimidas. Tal situação decorre do alto índice de burocratização dos serviços que fazem com que os profissionais utilizem boa parte da sua carga horária para desenvolver atividades administrativas. Dessa forma, verifica-se que as demais categorias profissionais de nível superior, que compõem a equipe de Saúde da Família, pouco se envolvem nas atividades de educação em saúde. O resultado, então, sugere que tais categorias, principalmente a classe médica, seguem atuando segundo o modelo curativo assistencial. Ainda acerca dessa classe convém ressaltar sua atuação e formação que, grosso modo, está marcada por pouca empatia pelas necessidades dos sujeitos, pelo distanciamento de suas atividades dos demais afazeres da equipe e pelo predomínio de modalidades de ações guiadas por um modelo assistencial por meio do uso de tecnologias duras.14 Assim, conclui-se que sem a coesão entre ações da equipe de Saúde da Família – necessária para o desenvolvimento conjunto de ações educativas que visem o atendimento integral do sujeito – os profissionais têm no projeto Curta SUS uma ferramenta de apoio que fomenta possibilidades de realização do fazer educativo, utilizando tecnologia leve e versátil.

“(…) o curta SUS veio dar uma oxigenada no nosso trabalho, na forma de lidar e fazer promoção de saúde, sendo uma importante ferramenta para que possamos fazer saúde de uma maneira diferente; devolvendo o brilho aos olhos não só dos usuários como também dos profissionais. ” (F.A.S., Enfermeiro).

Aliado ao trabalho desenvolvido pelo Programa Saúde na Escola (PSE) o projeto Curta SUS mostrou-se como valorosa ferramenta para o alcance das metas de educação em saúde nos ambientes escolares. A possibilidade de abordar diversos temas de maneira leve, lúdica, motivou crianças e adolescentes a participarem da roda e assumirem o papel de protagonistas, onde a produção de conhecimento é realizada de maneira compartilhada.

Dentro das ações do PSE existe o componente 2 que contempla atividades educativas sobre temáticas que são trabalhadas com o Projeto Curta SUS (…) os objetivos destas atividades eram alcançados satisfatoriamente, pois os adolescentes interagiam durante a roda de conversa tirando suas dúvidas e proporcionando a troca de experiências sobre o tema abordado (…)” (I.S.S.C., Enfermeiro).

Além de depoimentos que explicitam a satisfação dos profissionais com a realização da iniciativa, é possível verificar mais alguns dados: em 81,8% dos casos os entrevistados conheceram o projeto Curta SUS através da Secretaria Municipal de Saúde de Aracaju. Destaca-se, ainda, que todos os entrevistados agendaram o projeto mais de uma vez; 60,6% agendaram entre duas a sete vezes; 9,1% agendaram entre oito e dez vezes; e 30,3% agendaram mais de dez vezes. O agendamento foi realizado em 51,5% dos casos por telefone. Em relação a versatilidade do projeto, a maioria dos solicitantes (72,7%) utilizou o Curta SUS para trabalhar com mais de um tipo de público-alvo. E 51,5% dos entrevistados realizaram agendamento para ações que tinham como público-alvo crianças e adolescentes de escolas vinculadas ao PSE e 33,3% aos trabalhadores da saúde. Concernente às temáticas planejadas para discussão após o curta-metragem, apresentaram-se variadas e em diversos casos o mesmo solicitante trabalhou mais de uma vez o mesmo tema. Em 51,5% das entrevistas o tópico mais trabalhado foi cultura de paz (figura 1).

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Figura 1 – Temáticas Planejadas

“Em uma intervenção do Curta SUS, dentro das ações do Programa Saúde na Escola, os alunos da escola que fomos não queriam participar; o projeto mobilizou os adolescentes, através do curta, de tal forma que toda turma do 7° ano participou ativamente da discussão, rendendo uma roda de conversa muito produtiva sobre violência, bullying, drogas” (J.S.A, Geografo).

 

(…) chama a atenção como prende a atenção e proporciona maior interação e participação dos grupos, dos adolescentes. (L.N.C., Assistente Social)

Em relação aos objetivos propostos ao solicitar o projeto Curta SUS, 57,6% dos entrevistados apontaram a superação das expectativas. Dentro desse subgrupo, 30,3% afirmaram que houve uma alteração e ampliação da participação do público de forma além do esperado (quadro1).

Quadro 1 – Alcance dos Objetivos Propostos x Alteração na Participação/Fala

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Para a realização de atividades de educação em saúde os profissionais, em sua grande maioria, utilizam apenas palestras, cartazes e panfletos como recursos de atuação. Trata-se de um modelo de comunicação unilinear, no qual o emissor aplica determinados estímulos e espera obter do receptor determinadas respostas. Esse modelo está amplamente arraigado nas práticas de saúde coletiva vigentes, nas quais é valorizado prioritariamente o saber médico a fim de fomentar hábitos e práticas que articulem a promoção à saúde e a adesão da população aos procedimentos médico-sanitários.15

(…) acredito muito nas tecnologias leves para o desenvolvimento do trabalho de saúde da família, e através do Projeto Curta SUS conseguimos dar uma vivacidade ao serviço, trazendo algo novo numa perspectiva de fazer saúde, deixando um pouco o modelo assistencialista e se voltando mais as ações preventivas. (F.A.S., Enfermeiro)

A comunicação em saúde que invoca exclusivamente o saber técnico perde gradativamente sua força. Deve-se voltar uma maior atenção aos discursos de outros atores sociais, valorizando, assim, a construção de uma comunicação dialógica que visa a interação e a construção coletiva de saberes.16 Desse modo, ao mesmo tempo que produz e faz circular seus discursos, apropria-se dos discursos circulantes.17

“(…) O Curta SUS traz novas possibilidades ao profissional de saúde, proporcionando formas para maior interação com os usuários, trocas de experiências entre trabalhadores e usuários, e entre os próprios usuários, podendo assim conhecer as demandas, os anseios, as dúvidas.” (M.V.A.N., Assistente Social)

Ampliar a concepção da comunicação na atenção à saúde para fora dos muros dos serviços fomenta uma reflexão sobre possíveis utilizações de novas tecnologias de comunicação.18 Dessa forma, poderiam transformar as ações desenvolvidas pelas equipes multiprofissionais, as quais ganhariam caráter inclusivo e participativo com objetivo de empoderamento e posicionamento dos diversos atores sociais.

“Para mim, o principal benefício é promover o diálogo, as pessoas expõem suas opiniões, suas dúvidas, seus anseios, onde não há certo ou errado nas falas que circulam na roda. Eu recomendaria a outros trabalhadores por ser uma ferramenta que podemos usar de diversas maneiras, com inúmeras possibilidades de adequar a cada público, a cada local, sempre de forma gratificante (…)” (C.C.M., Bióloga)

Nesse contexto, a premissa da Educação Popular em Saúde não é a de informar para atenção à saúde, mas de transformar os saberes existentes através de práticas educativas emancipatórias. Tal prática visa o desenvolvimento da autonomia e da responsabilidade dos indivíduos no cuidado com a saúde, não mais pela imposição dos saberes técnicos-científicos, mas sim pela valorização das relações interpessoais estabelecidas nos serviços de saúde.19

Acerca dessa prática, pode-se coletar dos entrevistados, por meio das descrições verbais, seus objetivos e opiniões sobre o projeto Curta SUS. Houve repetição de algumas palavras e/ou expressões que foram categorizadas e quantificadas conforme a figura 2.

Figura 2 – Palavras e expressões utilizadas durante os relatos das questões abertas

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Pode-se perceber que os objetivos propostos ao idealizar as atividades do projeto Curta SUS – busca pela promoção da ampliação e desenvolvimento estratégias inovadoras que visem garantir a integralidade, a universalidade e a equidade a partir do estímulo da autonomia e da corresponsabilização social – seguiram norteando as ações do projeto. Percebeu-se, ainda, a grande adesão por parte dos trabalhadores das redes de saúde e educação, notabilizado por sugestões e efetivação dos objetivos cristalizado na repetição das falas com termos como: maior interação, diálogo, inovador, promoção e prevenção à saúde e troca de saberes.

Ao realizar ações educativas por intermédio da arte possibilita-se a produção de sentidos de aprendizagem que ultrapassam a instrumentalidade da razão e do mecanicismo da técnica, tão arraigada na formação e na prática dos profissionais de saúde.20 Dessa forma, quando a Educação Popular é inserida no cotidiano das ações e práticas de educação em saúde, pode-se, por meio da crítica e da reflexão, constatar as transformações e reconstruções dos saberes dos sujeitos ou do grupo, que não detinham o conhecimento oriundo do princípio acadêmico-científico, ao mesmo tempo em que o profissional com papel de educador apropria-se do conhecimento que tem origem no universo comum.21

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pode-se perceber, como colocado pelos próprios solicitantes pesquisados, que o projeto serve como ferramenta que os auxilia na realização de ações de caráter educativo que visam a promoção e prevenção à saúde. Dessa forma, traz benefícios não só para os sujeitos que são alvo das ações, como também para os profissionais que transformam suas práticas e conseguem – com auxílio do projeto Curta SUS – ampliar as ações de educação em saúde. Também vale destacar nesse processo educativo o papel da Política Nacional de Educação Popular em Saúde, assim como a Política Nacional de Humanização que preconizam a criação de espaços de fala/escuta tanto para usuários, como para trabalhadores e por meio dos recursos audiovisuais, bem como utilização de uma comunicação dialógica conseguiu-se, claramente, visualizar a criação desses espaços.

Outro aspecto relevante é a grande variedade de temáticas trabalhadas e a diversidade nos perfis do público-alvo dos envolvidos, o que demonstra a versatilidade do projeto, bem como de suas possibilidades de atuação. Nesse contexto, verificou-se que o Curta SUS pode ser uma ferramenta de gestão transversal nos diversos programas e redes de atenção à saúde, na medida em que visa reconhecer a importância e a pluralidade dos mesmos, assim como propõe a necessidade de ampliação do diálogo entre eles. Além de evidenciar a necessidade de entendê-los como instâncias de produção de subjetividade na busca da corresponsabilização dos sujeitos em relação à saúde.

Conclui-se, que o CURTA SUS pode ser facilmente replicado em outros locais, visto o baixo custo para implantação e execução, elevado grau de satisfação dos profissionais solicitantes e ampla gama nas formas de utilização. Recomenda-se, por fim, que se faça estudos posteriores sobre a temática abordada devido a pequena produção científica disponível. Além da coleta das impressões e opiniões com os envolvidos em diferentes instâncias do projeto, a fim de verificar o impacto da utilização dos recursos utilizados e obtenção de uma análise complementar acerca do projeto Curta SUS.

 

 

REFERÊNCIAS

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[1]    Graduanda Bacharel em Enfermagem – Departamento de Enfermagem Universidade Federal de Sergipe. email: chenya.coutinho@gmail.com

[2]      Murilo de Brito Andrade além de coordenador do NUPRIN também atua como arte-educador e arte terapeuta. As informações acerca do projeto foram coletadas em entrevista realizada em 13 jan. 2015.